as horas extraordinárias

«bem fiz em ter por necessárias as horas extraordinárias.», sérgio godinho

Archive for the ‘música’ Category

fazer de um dia útil, um domingo no mundo.

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Sérgio Godinho @ Coliseu do Porto, 16 de novembro de 2011

Sérgio Godinho @ Coliseu do Porto, 16 de novembro de 2011

Sérgio Godinho, que não é alheio às mudanças dos jogos da Santa Casa da Misericórdia, faz dos seus concertos combinações vencedoras. É tanto assim que, apesar do original “Com um brilhozinho nos olhos” fazer referência a um «treze no totobola», a versão que chegou aos nossos dias virou, na letra, «um seis no totoloto». Godinho tem esta coisa de equilibrar a modernização com a métrica, e em 40 anos apresentar a mutação da sua própria obra. É por este motivo, e por esse empenho, que a premissa para estar presente é sempre a de ouvir músicas antigas com novas roupagens e, claro, celebrar as novidades com o entusiasmo com que se celebram novas narrativas. De facto, aqueles que se reuniram no Coliseu sabem-no: é a capacidade de narrar e a a construção das histórias das canções o principal argumento do cantor.

Faz todo o sentido a abertura do espectáculo com a canção que abre o novo “Mútuo Consentimento”, para nos cantar que a música é tamanha e cabe em qualquer medida; mas estranha-se, no entanto, a escolha do Coliseu. O repertório cabe melhor num auditório e, na verdade, todo o concerto foi uma tentativa de recuperação de intimidade e de aproximação ao público. Pelo meio, acompanhado pelos Assessores, transportou o Coliseu do Porto para uma viagem.

Fê-lo com contrastes térmicos e históricos: aqueceu a sala com “Liberdade”, para a arrefecer com o frio do Douro à noite em “Etelvina”. Cativou os mais conhecedores da obra através de músicas como “A vida é feita de pequenos nadas” para lhes oferecer o ainda recente — tratado sobre a bipolaridade portuguesa e pérola sinfónica escondida do penúltimo disco — “Só neste país”. Ganhou o público, e a noite, com a versão de “Cuidado com as imitações” (com os convidados especiais Roda de Choro de Lisboa) para soltar a rolha na garganta do público com “Quatro Quadras Soltas” e emocionar-nos com “O primeiro dia”.

No final, sublinhou o “Espectáculo” com o “Elixir da eterna juventude” para se despedir, com todos os músicos em palco (Assessores e Roda de Choro de Lisboa) “Com um brilhozinho nos olhos”.

Dancemos porque 4 décadas depois, Godinho mantém a arte de fazer em pleno dia útil, um Domingo no mundo.

Celebremos porque saímos a querer fazer filhos para que eles ouçam e vejam coisas destas.

Concordemos: os concertos nos Coliseus, como celebração de carreira, são combinação vencedora de canções novas com canções de sempre e resultam em mais que um EuroMilhões. Sim, concordemos, isto é puro jackpot.

* texto sobre o concerto de sérgio godinho, em 16 de novembro de 2011, no Coliseu do Porto originalmente publicado na Rua de Baixo (aqui).

Written by Cláudio Vieira Alves

25/11/2011 at 11:17

o privilégio das noites ritual terem 20 edições.

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As Noites Ritual, que já não têm rock no nome mas que ainda têm rock no seu cartaz, chegam à 20ª. edição. Permanece no Porto, e nos Jardins do Palácio de Cristal, aquele que é, desde há muito, o único festival de música portuguesa (cem por cento do cartaz é português) e um festival que mantém a aposta em focar-se, em ambiente urbano, em públicos distintos. Oscila, ora entre entrada livre, ora entre valor simbólico de entrada, e e 2011 é um ano em que se paga: 3 euros por cada uma das noites.

Cartaz das "Noites Ritual 2011".

Cartaz das "Noites Ritual 2011".

Hoje, 26 de Agosto, a primeira noite é do rock. No palco principal X-Wife, Linda Martini e a confirmação do regresso aos palcos dos Zen, enquanto no palco secundário WE TRUST e Guta Naki. Os Zen serão, admito, a principal motivação para hoje ir até às Noites Ritual. Provavelmente, deixando de lado o segundo disco “Rules, Jewels, Fools”, e pegando nas canções fortes de “The Privilege of making the wrong choice”, os Zen prometem celebrar o rock-funk que tão bem arquitectaram.

[ Vídeo: “U.N.L.O.”, por Zen ]

Amanhã, 27 de Agosto, outros estilos musicais cruzam os palcos, com Terrakota, Mind Da Gap e Orelha Negra, no palco principal.

Written by Cláudio Vieira Alves

26/08/2011 at 19:10

royal albert hall ou como uma lamechice influenciou os concertos de rock.

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Quando a Raínha Vitória decidiu inaugurar o edifício que o Príncipe Alberto tinha arquitectado para ser o The Central Hall of Arts and Sciences estava a borrifar-se para o rock. Ou, pelo menos, para o bom gosto.

Sou desta opinião por vários motivos, dos quais o principal — e mesmo dando de barato o argumento de que em 1871 nem sequer havia possibilidade de Vitória conhecer o rock —  é que a Rainha escolheu um nome para este edifício com base em pura lamechice. Sim, a escolha de Royal Albert Hall of Arts and Sciences foi, na realidade, orientada apenas pela morte do seu amado Albert. Foi tanto assim que, com o dinheiro que sobrava da construção sonhada por Albert, e não bastando alterar o nome que Albert tinha arquitectado em vivo, decidiu sublinhar a lamechice ordenando erguer, mesmo do lado de lá da rua onde está a sala de concertos, um Albert Memorial.

E, se bem vistas as coisas, o nome Royal Albert Hall até é aceitável, a verdade é que o Albert Memorial é, na opinião de qualquer pessoa mentalmente sã, a pior coisinha que alguma vez aterrou em Londres. E, concordemos todos neste aspecto — mesmo os que apreciam a cruz do santuário de Fátima —, quem constrói um Albert Memorial banhado a ouro está-se a borrifar para o bom gosto e, consequentemente, para o rock.

Albert Memorial

"Albert Memorial", o monumento de homenagem a Prince Albert (Londres).

Royal Albert Hall

Mas, no caso da obra que Albert não chegou a inaugurar, ficou um imponente edifício, uma belíssima arquitectura e uma construção atenta ao detalhe. Sobreviveu a ataques da 2ª. Guerra Mundial, ao tempo, ao abandono, à falta de financiamento e, depois de várias renovações, foi elevado a caso de estudo mundial de acústica, recebeu milhares de concertos únicos e é, indiscutivelmente, uma das salas mais icónicas do rock internacional. E, para mim, isso basta e anula toda a lamechice da Rainha.

Aliás, se num prato da balança pousar The Who, Led Zeppelin, The Beatles, Elton John, Sting, Chaka Khan, Eric Clapton, Bob Dylan, Pink Floyd, etc, fica fácil esquecer o que pretendia incialmente colocar no prato oposto.

Esta sala acumulou tantos nomes, e tantos concertos brilhantes a que acabei por assistir (felizmente, existem vários registos em vídeo), que este auditório-coliseu era, para mim, um dos principais destinos turísticos.

Arrepiei-me quando visitei o Royal Albert Hall como me arrepio com algumas canções. E, sempre que revejo momentos em que as canções casam com a sala e com o público, entusiasmo-me outra, e outra vez. E, dos registos em vídeo desta mesma sala, quer me emociono com o público de 1971 (ver, por exemplo, Led Zeppelin aqui), quer me arrebata o público de 2009 (ver, com atenção, o seguinte vídeo a partir dos 3 minutos). A mesma sala, mas um público contrastante.

[ Vídeo: “Jenny was a friend of mine”, por The Killers — ao vivo no Royal Albert Hall, 2009 ]

E, a esta altura questiona-se legitimamente o leitor: isso de arrepiar com a música não é um bocado lamechas?

Respondo: é, pois. Mas, pelo menos, não leva talha dourada.

Written by Cláudio Vieira Alves

20/08/2011 at 08:28

como à espera do comboio na paragem do autocarro.*

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Written by Cláudio Vieira Alves

22/03/2011 at 14:19

o muro quebrado como um conto musical.

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É hoje e amanhã (21 e 22 de Março) que o Pavilhão Atlântico, em Lisboa, comemora num concerto orquestrado por Roger Waters, quer os 30 anos decorridos sobre o lançamento do disco “The Wall“, quer o concerto emblemático em que Roger Waters derrubou um pedaço do muro de Berlim, em 1990. É justo que seja pela mão de Waters que o espectáculo nos chega já que “The Wall” respira Roger Waters por todo o lado: desde a concepção de praticamente todas as melodias e letras do disco, passando pelo desenho da capa, e até à criação dos espectáculos. Tanto assim que “The Wall” é o único disco da discografia dos Pink Floyd do qual Waters detém absolutos direitos.

Capa do disco "The Wall", dos Pink Floyd.

Capa do disco "The Wall", dos Pink Floyd.

Felizmente que uns Pink Floyd, em 1979, apesar de financeiramente arruinados, tiveram a coragem de perante o seu enriquecimento criativo construir um disco que narrasse a história de “Pink” — uma criança que a sociedade maltratou e convidou a que construísse um “muro” à sua volta. Felizmente porque dificilmente, no período de concepção e gravação deste álbum, Roger Waters terá equacionado, ou vislumbrado para lá da sua obsessão criativa, as implicações e repercussões que as suas músicas teriam na influência do rock contemporâneo ou, mais ainda, a falta que este disco faria na história da música. Felizmente, também, porque editaram, dessa forma, o disco de rock mais próximo de uma ópera, ou de uma peça de teatro; que hoje, quer em disco, quer como espectáculo, sabemos ser incontornável.

Nestes dois concertos em solo português, que são o arranque da digressão europeia “The Wall Tour”, a reinterpretação daquele que foi essencialmente um concerto cénico, e onde o The Wall foi tocado de uma ponta à outra, vai garantidamente arrebatar — até porque agora, com ainda mais tecnologia, o perfeccionista Roger Waters pode levar a cabo aquilo que sempre pretendeu apresentar: um espectáculo pautada pela excelência.

O disco que nasceu antes de mim (e que descobri, a primeira vez, há 15 anos, no topo da gaveta de discos de um amigo dos meus Pais, enquanto procurava — sim, que a verdade é esta — discos dos The Cranberries) pareceu-me sempre algo a que nunca poderia assistir ao vivo. Enganei-me. Amanhã estarei no Atlântico para confirmar, em dois actos e ao longo de 3 horas, que estar enganado, tenho aprendido, pode ser das coisas mais bonitas nisto de se estar vivo.

[ Vídeo: “Another Brick on the Wall”, por Pink Floyd ]

Written by Cláudio Vieira Alves

21/03/2011 at 20:14

as baquetas de morello.

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Quando o baterista Joe Morello integrou o quarteto de Dave Brubeck, em 1956, as experiências e invenções de novos ritmos de jazz ficaram enriquecidas. Foi, precisamente, pela invenção rítmica, criatividade e subtileza dos seus preenchimentos acústicos que Morello pautou a sua relação com a bateria e, dessa forma, registou o seu nome na história do jazz. Adjectivos que também explicam que, ao longo da sua carreira, tenha acabado por se sentar na bateria para gravar 120 discos — dos quais 60 foram, precisamente, com Brubeck.

Joe Morello

Apesar de algumas dificuldades relacionadas com a visão gravou, já na dita terceira idade, vários discos, fartou-se de dar concertos, deu palestras, escreveu livros sobre como tocar bateria e gravou vários DVD com lições de bateria onde partilhava as dicas para o seu estilo inconfundível.

Morreu a 12 de Março deste ano — com 82 anos — na sua casa em New Jersey.

Na memória das suas baquetas ficam-nos belíssimos clássicos como Take Five ou, por exemplo, Sounds of the Loop.

[ Vídeo: “Sounds of the loop”, por The Dave Brubeck Quartet ]

Written by Cláudio Vieira Alves

15/03/2011 at 09:46

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todo o carnaval tem o seu fim.

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É curioso que este pós-férias manifeste a mesma sensação de falta de cafeína que as segundas-feiras. A verdade é que estas férias de carnaval foram, apesar da curta duração, tão diversificadas e preenchidas que, desta vez, tenho mesmo que reclamar que o carnaval tenha seu fim. Mas, faço-o com o pretexto de citar declaradamente os brasileiros Los Hermanos — que, ao abrigo da sua nacionalidade, têm mais do que autoridade para falar de desfechos carnavalescos.

E “Todo Carnaval tem seu fim” é, dentro ou fora da época de folia, uma das minhas canções favoritas de sempre (o vídeo fica aqui, e a letra está ali).

[ Vídeo: “Todo Carnaval tem seu fim”, por Los Hermanos ]

Written by Cláudio Vieira Alves

09/03/2011 at 09:13