as horas extraordinárias

«bem fiz em ter por necessárias as horas extraordinárias.», sérgio godinho

bocage e a não-religiosidade da música abaixo de braga.

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[ este artigo foi publicado na 3.ª edição do jornal contrabando. o título original foi: braga é suficientemente mutante para rock’n’rollar. ]

Uma vez, perante uma arma de fogo, perguntaram a Bocage: “Quem és, de onde vens e para onde vais?”. O mesmo, espontâneo e hábil nas respostas em rima, respondeu com uma quadra que permanece na história: “Sou o poeta Bocage/ Venho do Café Nicola/ E vou para outro mundo/ Se disparas essa pistola.” Com a mesma rapidez de Bocage, e perante um visitante que deixe a porta aberta, quase todos os portugueses costumam disparar ao incauto — e no mesmo tom do interlocutor de Bocage —, “Vens de Braga?”. Se a resposta desagradar, é sabido que o emissor não se retrai; manda esse alguém abaixo de Braga. As expressões populares atribuídas à velha Bracara Augusta fazem já, como a cidade, parte da história Portuguesa. E, asseguro — recorrendo pela terceira vez à nossa tradição oral —, também na música, nunca se viu Braga por um canudo.

Uma das principais referências do rock português, e incontornável mesmo para quem estranha a sonoridade animalesca que recitam, são os Mão Morta. Com 25 anos de carreira, a banda do estilhaçado Adolfo Luxúria Canibal e multi-facetado Miguel Pedro, contrasta com a visão fervorosamente religiosa que o País guarda de Braga — a Capital do Minho que possui bem mais Igrejas do que Teatros. Banda anti-apática, os Mão Morta dividem as opiniões para despertar, na sua (des)construção musical, ecos revoltosos de um rock que nem sempre o é. Na realidade, são um rock transmutado como se pode avaliar nas sucessivas incursões experimentais e viragens estéticas que, ao longo dos seus discos, têm produzido. Mas, é ao vivo que este colectivo, de amigos que são músicos em part-time (e nunca vice-versa), colhe as principais surpresas dos espectadores. Deixemos os mitos de lado para verificar que a recente digressão, de celebração dos 25 anos, proporcionou espectáculos dos mais coerentes que por cá sopraram. Concertos orquestrados como uma grande, apenas uma só, música. Intensa e explosiva — num estilo de arrepio que fez transpirar os presentes.

Os 6 elementos dos Mão Morta.
Os 6 elementos dos Mão Morta.

Perante a reedição dos primeiros quatro álbuns de Mão Morta, editados originalmente entre 1988 a 1992, identificamos o caminho desde o negro do primeiro álbum homónimo até ao “Mutantes S.21”, e reconhecemos que a génese do actual rock bracarense é aqui que habita. O seu percurso, que nasceu de mero entretenimento, saíu do obscuro e, passo a passo, rasgou e agitou o País. E Braga não pôde ficar impune. É por isso inegável a referência musical em que os Mão Morta se tornaram para muitas bandas actuais. É neles que residem os visíveis alicerces da música que, mais tarde, se ouviu desde os Um Zero Amarelo até aos peixe:avião. Mesmo o funk-rock dos Monstro Mau tem, numa simpática faixa, a voz de Adolfo. E, claro, os braços que dos Mão Morta saíram para formar os dedos dos Mundo Cão ou O Governo não passam despercebidos a nenhum ouvinte. Fundiu-se, bem fundo, o rock em Braga. E de onde veio, haverá mais.

Em Abril, os Mão Morta — depois de “Nus” na sua própria editora Cobra —, estão de volta às grandes editoras com o novo disco: “Pesadelo de Peluche”. E com eles mais histórias. Histórias de chorar. De faca e alguidar, e por vezes de encantar. Mais histórias para contar e, definitivamente, de chorar. Por mais.

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