as horas extraordinárias

«bem fiz em ter por necessárias as horas extraordinárias.», sérgio godinho

eu hoje venho aqui falar do rock-anti-latifundiário.

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[ este artigo foi publicado na 2.ª edição do jornal contrabando. o título original era: rock-anti-latifundiário combina com reforma musicalmente agrária. ]

Há 35 anos, em pleno pós-25 de Abril, eram muitos os músicos que, visando alcançar metas sociais outrora negadas, reclamavam e faziam ouvir a sua voz por este País fora. Sérgio Godinho, por exemplo, aproveitava e construía “À Queima-roupa” — num dos seus discos manifestamente mais políticos — um hino-manifesto à reforma agrária, colocando e cantando “Os pontos nos is”. Mais tarde, o mesmo Godinho sobre a mesma temática, cantava que “aquilo que é mesmo reforma agrária é, para alguns, o demónio vermelho”. Passaram, já o disse?, 35 anos. Pois, e só sabemos agora, uma reforma estética de anteriores e tradicionais sonoridades passava pela crucificação do pai de todos os demónios. Passava por colocar o diabo, definitivamente, na cruz.

Este Diabo na Cruz é um projecto liderado e produzido por Jorge Cruz. Antes das recentes actividades de produtor (em bandas como “Os Golpes” e “João Só e Abandonados”) Cruz contava já com uma carreira preenchida. Aliás, recapitulada a carreira do músico identificam-se, antes dos seus dois álbuns a solo — “Sede” (em 2005) e “Poeira” (em 2007) —, semelhantes sonoridades experimentadas, no início da década, em Superego. Aqui, em Diabo na Cruz, as canções são da autoria de Jorge Cruz mas foi num experimentado colectivo que estas foram trabalhadas e arranjadas, até atingirem esta forma de abanão musical. Os músicos envolvidos, e que mais parecem artesãos da música, são os talentosos B Fachada, Bernardo Barata, João Gil e João Pinheiro.

Capa do disco "Virou!" dos Diabo na Cruz.

Capa do disco "Virou!" dos Diabo na Cruz.

Os 5 elementos partiram de um EP (“Dona Ligeirinha EP”), com a rapidez com que um diabo fugiria de uma cruz, para um disco completo e sólido que, no final deste 2009, apresenta-se como uma das principais produções musicais e um disco, assumidamente, reinventivo no cenário da música tradicional portuguesa. Em forma e conteúdo diabolicamente sensual os Diabo na Cruz recolhem, em “Virou!”, os sons da nossa terra para os devolverem mais eléctricos do que nunca. Colectivamente, vendem, neste absorvente disco, um elegante e fresco upgrade ao folclore — e que inclui, ainda, direito a odores de rock em plenos anos zero.

No início do disco, Vitorino Salomé, de voz envolta em percussões, avisa que as raízes mais profundas da nossa árvore musical estão de volta à superfície. Para que se duvide, guitarras cospem electricidade e parece que o interrompem. Mas, e ainda antes que o refrão seja cantado em coro, constata-se que as canções soam: ora, modernas; ora, tradicionais. E o disco gira fazendo tudo isto, e ainda mais, ao mesmo tempo. É, provavelmente, neste equilíbrio, gerido com harmonia e mestria, que soa bem. Quando se dá conta, os onze temas rapidamente se esgotaram e a audição reclama um repeat-à-moda-antiga.

Crucifiquem-se mais demónios assim. É que um festim destes não deve, nem pode, acabar.

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  1. […] a comment » E, ainda, a respeito do Diabo na Cruz conheci hoje as datas da sua digressão — onde pretendo marcar presença, pelo menos, em dois dos […]

  2. […] assistir a folclore ao vivo. Deste: dançável, energético e eléctrico — bem sei que já vos disse. As datas da digressão já aqui as publiquei e, amanhã (13 de Fevereiro), no belíssimo Centro […]

  3. […] dia 3 de Março, no S. Jorge (Lisboa) o Diabo na Cruz sobe a palco. Sexta-feira, dia 5 de Março, no Cinema Passos Manuel (Porto) — e ao contrário do […]


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