as horas extraordinárias

«bem fiz em ter por necessárias as horas extraordinárias.», sérgio godinho

os segredos divinos do rock em portugal.*

leave a comment »

[ este artigo foi publicado — com erros de paginação alheios ao seu autor — na 1ª edição do jornal contrabando. o título original era: a nova música portuguesa. ou, cristo tinha cabelos compridos por gostar de grunge? ]

"só neste país", a rubrica de música portuguesa do jornal contrabando.

Há já muito tempo que o mercado da música popular portuguesa se encontrava fechado em si mesmo. O retrato da música nacional era polarizado e a imagem deste alternava apenas entre dois estados: uma espécie de promiscuidade criativa; ou políticas castradoras de talento. Ou seja: ou existia o monopólio dos mesmos músicos, mesmas produtoras e os mesmos protagonistas em curto-circuito; ou aparições tímidas, aqui e ali, afastadas de um grande público de consumo e impossibilitadas de se demarcarem de um primeiro EP caseiro. A referência e tendência para o nosso mercado local — diziam-nos os especialistas — era o modelo discográfico das fracas vendas a que lá fora assistíamos. A isto juntavam, e insistiam, um só nome para o grande culpado. Pirataria. A mesma que, ainda hoje, é sinónimo da dificuldade em se venderem discos. Sinónimo, claro, nas mentes que só vêm a redução das vendas onde a maioria espreita um aumento de procura e consumo da música.

Ora, com tudo isto, toda uma geração musical de adeptos de um pop-rock português  pautado por inovação — e cujo sinal dos últimos fragmentos residia no final inesperado dos Ornatos Violeta —, sofria e ansiava por novo alimento musical. Os teimosos, ainda da explosão dos anos 80, que mantinham a sua produção musical ou, por exemplo, os inventivos Clã já não bastavam. Era urgente maior produção nacional de música.

O deserto musical desaparece quando, recentemente, qualquer coisa de refrescante ocorre. A música portuguesa volta a ocupar a sua posição dinamizadora com a entrada em cena de algumas bandas que se tornaram um fenómeno. Assuma-se a qualidade criativa e ambiente sonoro que, sustentadamente, Linda Martini, peixe:avião, Mundo Cão, doismileoito, etc, reúnem. Mas, assuma-se maior surpresa quando, subitamente, confrontamo-nos com um culto desenhado à volta de Tiago Guillul, Os Pontos Negros, Samuel Úria, Os Golpes, Diabo na Cruz e tantos outros. Num curto espaço de tempo aparecem uns desconhecidos que nos parecem de origem clandestina. E, damos por nós a pensar: mas, como é que a estes tipos a pirataria não destruíu o crescimento? E, enquanto o pensamos, os ditos especialistas ainda se interrogam quem são eles.

O denominador comum destes diferentes nomes — que nos aparecem seja nas colectâneas ou festivais de verão, passando pela rádio — traduz-se em: evangelização, associativismo religioso, clubismo, crença num mesmo Deus — caramba!, tanta adjectivação para algo tão simplesmente traduzido no português corrente como fé. Mas sempre existiu?, pergunta o leitor mais interrogativo. Decerto que sim. A novidade está na sua união, através da editora Flor Caveira ou promotora Amor Fúria, que os transporta para o mercado onde todos os outros, hereges, se encontram. “Os Pontos Negros” não estarão muito longe da qualidade dos antigos “A Instituição” (banda dos anos 90 de Tiago “Guillul” Cavaco) mas a sua promoção e suporte é hoje diferente daquela que, anteriormente, estava limitada a uma pequena comunidade baptista. É colectiva. Assente. Sólida. E, pelo que se vê, tudo isto funciona. Isto porque não acredito que eles sejam abençoados por Cristo — apesar de, segundo a História, Cristo ter tido cabelo comprido e só por isso podermos afirmar ter sido um apaixonado por boa música. O segredo é menos divino e, como dizia o outro, está na massa. Nos ingredientes mais básicos.

Em última análise, e a provocação é atirada para fora da compreensão dos analistas de mercado, o que move estas novas bandas de rock é desconcertante na filosofia comercial da indústria da música. É imperceptível ao radar de negócios. Na realidade o que os move(u), fundamentalmente, é uma necessidade de levar a mensagem. Fazem-no afastados dos números e da imposição de vendas. E o desígnio, a emergência de cumprir os sonhos, é imbatível. Ironia das ironias, um dos veículos para se vender música popular portuguesa é precisamente o meio anti-comercial. Ainda, deste modo colectivo, conseguiram ocupar uma posição e ganhar um mercado mais robusto para a sua equipa (o seu catálogo de músicos) do que teriam conseguido para um nome isolado.

Generalizando, reparo que depois de tantos anos regressamos a este que foi, outrora, o grau zero das indústrias discográficas. E na volta, talvez interesse retornar aos primeiros conceitos para deles reerguer a indústria. Porque é possível vender discos num mercado que afirmavam estar saturado pela pirataria do mp3? É possível conquistar pequenos e grandes palcos alheados de um marketing peganhento? Sim, aparentemente, é possível recrutar, ainda, entusiastas para a nossa cultura musical.

É uma lição para promotoras e editoras. E para os analistas. E se não o é, devia.

Anúncios

Written by Cláudio Vieira Alves

02/11/2009 às 22:02

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s